terça-feira, março 24, 2015

Sobre o “Desafio Sem Maquiagem"

 Refleti muito antes de escrever um texto sobre esse assunto. Há algum tempo eu vinha observando a movimentação dessa nova onda de “desafios” online — e as opiniões aqui e acolá sobre cada um deles. O que quero fazer aqui é refletir especificamente sobre o '' Desafio Sem Maquiagem '' ou “Desafio Sem Make”, que contou com a adesão de diversas mulheres famosas e “anônimas” na esfera virtual.
 Acho que existe muito cinza entre o preto e o branco. Portanto, para mim é delicado conceituar ações desse grau apenas como fúteis ou como corajosas. Cada caso é um caso. Cada mulher tem seu motivo para aderir ao desafio ou para rejeitá-lo. Porém, é preciso pensar o que significa, de um modo amplo, chamar o ato da retirada de maquiagem um “desafio”.
 É por que ser aceita tal qual se é, sem pinturas e edições, significa desafiar todo um mecanismo de influência nutrido pela mídia e pelas grandes empresas de cosméticos? É se despir de uma “armadura”, que é usada para ser socialmente aceita e tentar avivar a autoestima? Ou é só pelos “likes”?
 Para muita gente é um desafio sair sem maquiagem. Mas, quem são essas pessoas? Como elas se sentem quando alguém as chama de bobas ou fúteis? Tem muita coisa que a gente não quer mostrar. Cicatrizes, manchas que preferimos esconder, porque a imagem daquilo nos traz repulsa sobre nós mesmos. Quem não tem alguma marca no corpo que gostaria de não ter?

 "Eu não uso maquiagem, e nem chega a ser uma decisão fortemente ideológica de resistência (como manter o cabelo cacheado para mim é). É preguiça mesmo, 99% das vezes. Passo batom e olhe lá, porque é rápido e dá pra fazer sem espelho. É só algo que não se torna caro. Desafio para mim é usar maquiagem, gastar um tempo para pintar o rosto de uma forma que seja considerada bonita, acertar os traços, as combinações de cores, eu me diverti quando tentei, mas foi uma vez a cada mil anos e para mim já deu. Não sou iniciada nesse meio, mas isso não significa que eu esteja de bem com a minha aparência ao natural." - Mariane, 18 anos.

 Mulheres que se produzem são mais inseguras? Minha vivência diz que não. O desafio que eu sinto que deveria ser protagonizado era o de se curtir, sem esperar muito das curtidas dos outros — da aprovação da mídia e de sei lá mais quem. O desafio mesmo é empoderar-se enquanto mulher, de cara limpa ou maquiada, com silicone ou bronzeamento artificial, do jeito que cada uma escolheu manipular o próprio corpo e que legitime a sua própria voz ativa sobre o seu corpo.
 Em resumo, o que quero dizer é: ponha maquiagem, tire maquiagem, mas reflita conscientemente, permaneça verdadeira a você. Perceba as manipulações, as influências. Quebre as regras. Transgrida. Boicote o senso comum de que você tem que estar perfeita o tempo todo, do jeito que lhe dizem, mostrando que você é perfeita sim, mas de qualquer jeito, desde que seja do seu modo. Divirta-se, permita-se. Faça o que lhe apraz com consciência ativa e chegue mais perto da sua liberdade.

 Por: Ana Júlia Ferreira.

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